
[...] Tic, tac, tic, tac. O tempo voa. Mal começou o ano e já chegou o tão esperado mês de dezembro. Como de costume, o mundo inteiro direciona os holofotes para as festas de fim de ano. É sempre assim! A árvore de natal é montada e a preocupação com os enfeites, as pequenas luminárias - que acesas dão um colorido nostálgico ao ambiente - começam a ser compartilhadas.
Lá em casa, não chegavam tantos cartões. Talvez porque minha mãe não tivesse o costume de montar árvores de natal. Quem sabe porque não havia estacionamento para o trenó e as renas de Papai Noel. Lá a única chaminé que havia era a do fogão a lenha e o bom velhinho é homem chique, só entra se tiver lareira.
Os anos se passaram e, hoje, para a minha geração já não há mais cartões de natal. Evoluímos. Este ano pensei em montar a minha árvore em cima do computador. Mas, que graça tem se não consigo colocar os e-mails, posts, twitts e scraps por entre os galhos? O intrigante mesmo é saber que apesar da evolução as mensagens continuam exatamente as mesmas do tempo de minha avó. Vazias e completamente impessoais. Ainda mais com o advento dos aplicativos e softwares que vieram pra banalizar as mensagens e a lembrança da pessoa alheia.
Refletindo acerca disso tudo, concluí: a melhor época do ano, como dizem, revela o vazio existencial que existe dentro da humanidade. A preocupação generalizada do povo gira em torno de coisas fúteis e vis. Compras, cardápio, lista de presentes, convidados, cronograma do ritual, etc. Há ainda as viagens, os planos de férias, os planos de sonhos, e os sonhos de fazer planos. São semanas vivendo a idealização de duas grandes festas: o natal e o reveillon.
Nas cidades e nos shoppings o cenário é de consumismo. As pessoas compram compulsivamente o que não precisam e nem poderiam comprar. Um comportamento decorrente de uma esperança subliminar depositada no inconsciente humano que diz: Ahhh inicio de ano [...] tudo vai ser diferente. Quanta ignorância! Quem disse que há inicios? Pura ilusão! Só há continuidade. A vida é um ciclo recorrente.
Chega o dia da festa. A vestimenta segue a tendência da moda. Branco para atrair a paz, amarelo para atrair o dinheiro. Uma fezinha na mega-sena sempre cai bem. Em época de ilusão, acreditar nisso é completamente aceitável. As pessoas querem o ápice. Para alimentar ainda mais o idealismo, ao vivo, assiste-se ao espetáculo que transformará o mundo. Ah se Roberto Carlos tivesse razão! "Daqui prá frente. Tudo vai ser diferente. Você tem que aprender. A ser gente. Seu orgulho não vale. Nada! Nada!". Mas, assim fosse.
[...] Tic, tac, tic, tac [...] o tempo voa. E, enquanto isso, a cada 5 segundos uma criança morre de fome na África. - Ah, mas a África está distante demais para nós nos importarmos, não é mesmo? Bem, vamos aos números, então. No mundo cerca de 16 mil crianças morrem por dia, vitimas da desnutrição. Mais de 852 milhões de famílias vivem em absoluta miséria sem ter o que comer, nem vestir. Continuemos a brindar! Afinal, nós conseguimos e o que temos adquirido é fruto do suor do nosso trabalho, não é mesmo? Louvado seja "deus"por isso. Não é assim que dizemos?
Brasil, Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Vila Dick [...] 11:55 PM. É reveillon. Milhares de pessoas comemoram o sofrimento da realidade. À mesa está posta. Sobre ela, sopa de papelão ao molho madeira. Mas não é aquele molho que você está acostumado a comer na Petiskeira, não. O gosto de madeira é o caldo da colher artesanal feita com restos de tábua que a dona de Casa gira freneticamente, enquanto chora a injustiça social discutida há anos nos Fóruns Mundiais Sociais e Econômicos do Brasil e Davos.
[...] Tic, tac, tic, tac. Eu só queria chamar a atenção para os contrastes. Longe dos idealismos da vida, esta é a realidade nua e crua que acontece no mundo independentemente da época do ano. [...] Tic, tac, tic, tac. Bombas no Iraque, assassinatos na favela da rocinha, planos de outros ataques partem das montanhas do Afeganistão. Pais maltratam seus filhos com agulhas. Outros os vendem para o turismo sexual. Na índia há pessoas que valem menos do que os irracionais. Mas há outros scraps em meu orkut. Muita gente, que nem me conhece me deseja um feliz natal e um próspero ano novo. Quem sabe eu faça um outro show, não é mesmo? As luzinhas da árvore de natal estão piscando na minha sala. Quase todos os hospitais estão superlotados. Tem gente morrendo agora, outros nascendo [...] Tic, tac, tic, tac. Outro morre, outro nasce, outro, outro, outro [...] e como compôs Cazuza "O tempo não para. O Futuro repete o passado. Vivemos um museu de grandes novidades." E quanto a nós? Bem, "com nossa piscina cheia de ratos, dias sim, dias não, vamos sobrevivendo sem nenhum arranhão". [...] Tic, tac, tic, tac.


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